Todos os dias, pontualmente às 18h30min, o Sr. Burns chega
em casa, após exaustiva jornada de trabalho.
Pontualmente, às 19h30min, a sra. Burns já está com o jantar
servido.
Rigorosamente às 20h30min, a cozinha já está brilhante e impecavelmente
arrumada. O Sr. e a Sra. Burns estão no escritório, fazendo ponderações sobre o
orçamento doméstico.
As 21h30min, o Sr. e a Sra. Burns já estão com seus trajes
de dormir e seus chinelos beges, sentados em seus confortáveis sofás,
assistindo atentamente a um programa religioso na TV. O único compatível com a
elevada moral do Sr. e da Sra. Burns.
Exatamente às 23h30min, o Sr. e a Sra. Burns já estão
posicionados em sua cama Box: ele à direita e ela à esquerda. Ela se deita por
último e desliga o abajur de cor azul clara. Dão-se um boa noite, viram-se e
imediatamente pegam no sono.
Estão agora de volta ao único e verdadeiro encontro.
Dedicado a todas as espécies de animais vítimas de maus tratos,
torturas e toda sorte de barbáries impostas direta ou indiretamente pelos seres
humanos.
Eu sou o acrobata da jaula dos fundos, porém todos me vêem.
Vou deixar minhas garras à mostra na grade e me contorcer
preso às algemas que te livram das minhas unhadas e dentadas bruscas, porque
você é fraco e covarde mesmo parecendo ser o preferido do espetáculo de Deus.
Se eu escapar daqui, vou sim arrancar ferozmente esse
sorriso do seu rosto triste, pusilânime; é como se você quisesse ser o próprio
Deus.
As tochas estão apagadas e vocês não têm fósforo.
Não adianta você tomar dimetiltriptamina, a sua imbecilidade
explodirá sem nenhuma discrição.
Vou deixar minhas presas à vista na esperança de que alguém
tenha medo e todos se afastem.
Eu sou o acrobata torturado da jaula dos fundos, porém todos
me vêem. O ar que respiro é diferente do seu, porque você pensa que é superior
a mim.
Mas eu sou o uivo que arrebenta seus tímpanos e o urro que
lateja em suas tripas.
Entre um passo e outro, você era eu ontem.
Uma espera na fila do circo com suas crueldades e cruezas,
ingressos alfanuméricos, nenhuma esfinge, um terror. Um terror. Repita comigo:
só terror.
Esta é a minha versão
do poema Manual de acrobacias, do poeta Carlos Augusto Lima. Para ler o
poema original, acesse o blog www..memoriaeprojeto.wordpress.com.
Edgar estava sentado em sua cadeira giratória diante da escrivaninha. Os pensamentos corriam pela sua mente. Já estava decidido. Não era uma decisão baseada na mágoa ou no desespero. Era sim, resultado de uma análise serena da realidade. Estava cansado.
Ele morava com a mãe e a esposa num amplo apartamento em um elegante bairro de São Paulo. A mãe e a esposa eram muito parecidas em vários aspectos. Bem diz a psicanálise, que o homem se relaciona com mulheres semelhantes à mãe.
Seu único afeto e preocupação era Spike, um vira-latinha que ele resgatou ainda filhote de um esgoto. Estava voltando para casa, quando avistou o pequeno tentando escalar a margem do rio e escorregando. Ao ver esta cena, apiedou-se e estacionou o carro para tirá-lo dali. Isso já tinha um ano e Spike havia se tornado um belo cão de porte médio e pelagem brilhante.
Edgar travou uma briga séria dentro de casa para manter Spike. A esposa e a mãe não queriam o pequeno. Por elas, ele seria abandonado mais uma vez.
Também sentia saudade de seu pai que fora assassinado num assalto. O bandido abordou e ele reagiu. Depois disso, tirou porte de arma e comprou uma pistola para se defender.
No salão de festas do prédio
Dona Marta estava presidindo uma reunião de senhoras do condomínio. Elas discutiam a decoração do hall de entrada. Precisavam decidir se os vasos de porcelana ficariam do lado direito ou esquerdo da portaria, se o espelho ficaria em frente ao elevador e o uniforme dos funcionários do prédio. Ela nem notou que Edgar chegou mais cedo em casa e estava no escritório há mais de uma hora.
Num intervalo da reunião, Dona Marta pediu a um dos funcionários para lavar a entrada de seu apartamento e depois passar "bom ar" porque Edgar tinha passado por ali com Spike no dia anterior. Ela tinha nojo de animais; segundo a psicanálise, pessoas assim, inconscientemente sentem-se impuras e sujas e projetam isso no animal.
Na joalheria
Melina estava na joalheria escolhendo uma jóia para compor seu visual para ir à festa dos Silveira Borges no próximo fim de semana. A atendente, muito educada, mostrava as finas peças da loja.
Ela tinha deixado o carro no lava-rápido ao lado para fazer hidratação e uma desinfecção por dentro. No dia anterior, Edgar tinha transportado Spike no carro. Ela também tinha nojo.
No escritório
A preocupação de Edgar com Spike havia cessado. Com ajuda da funcionária da Pet Shop, ele encontrou uma família de gente boa e honesta para adotar Spike. Eles se apaixonaram por ele. Edgar o entregou à família com um nó no coração, mas era necessário. Dona Marta e Melina poderiam fazer algum mal a ele.
No elevador
Depois de terminada a estafante reunião sobre a posição dos vasos e a estampa do uniforme dos funcionários, Dona Marta estava subindo ao seu apartamento. Chegou na porta e sentiu o cheirinho do bom ar, o funcionário fez exatamente como ela pediu.
Entrou em casa satisfeita e foi direto à televisão. Não percebeu que Edgar estava no escritório.
No carro
Melina escolheu uma bela jóia e estava voltando para casa em seu carro hidratado e desinfetado. Ao entrar na avenida principal, o trânsito estava parado, polícia, ambulância. Os policiais sinalizando. Quando ela passou pela ambulância, sem querer, viu o cadáver estirado na calçada, olho arregalado de susto e dedos crispados.
A mandíbula estava cerrada e tinha um buraco vermelho no meio do peito. E ela, tão fofinha, vendo aquilo. O cadáver duro e trincante estirado na calçada sob as luzes do giroflex e os sons das sirenes.
Ela gritou dentro do carro fechado, blindado e hidratado.
Logo chegou em casa, ufa! Foi direto ao cofre guardar sua nova jóia.
No escritório
Edgar tirou a pistola da gaveta e a manuseou; estava carregada. Sabia qual região do cérebro era fatal. Não podia errar. Colocou para tocar Robert Johnson. Levantou-se, andou um pouco, pegou um retrato do pai e olhou-o bem. Foi na janela, observou as luzes. Voltou à cadeira, sentou-se e apontou a arma para o alvo certo. Venceu todas as barreiras do instinto e do medo. Atirou.
Na sala
Melina e Dona Marta ouviram o disparo. Um só disparo. Veio do escritório! Encontraram Edgar debruçado sobre a mesa e o sangue escorrendo. Gritaram. Dona Marta desmaiou. O cheiro de pólvora com sangue inundou tudo e ficou impregnado nos objetos.
No enterro
Melina e Dona Marta jogavam punhados de terra sobre o caixão que ia baixando na cova. Depois foram embora de braços dados. Agora não tem mais preocupação com o mau cheiro de Spike.
Ah, desculpe, não preenchi nenhum requerimento. Sou sobrevivente de guerra e tenho mania de perseguição. Posso acreditar que você é um agente da repressão.
Caminho neste mundo há algumas décadas e fiz questão de ouvir o Metallica.
Não tem fato relevante nenhum, apenas o trabalho de Sísifo e um engano a cada cinco minutos de conversa.
O que ocorre é que sou estrangeira em todos os lugares.
É, eu tenho lá um diploma, se você quiser, trago cópias. Mas neles não está escrito que eu vou ler a tábua de Moisés.
A minha formação principal veio das inúmeras audições das sinfonias dos latidos, dos gatos guerreando, do mocho piando e do urro que vem dos bosques.
Foto minha? Ah, eu vou te trazer um Francis Bacon.
Hoje é dia de falar de rock´n´roll. Inconfundível estilo que movimentou e transformou gerações. É um estilo popular, responde aos anseios de milhões, mas assim mesmo, meio restrito. Nos seus primeiros momentos, lá na época de Chuck Berry, por exemplo, ainda associado a "coisa do diabo". Descendente legítimo do Blues, o rock é o grito dos oprimidos. Os bluesmen também tinham esse estigma de "vendidos ao diabo", é só olhar as letras de Robert Johnson. Claro, sempre que aparece alguma manifestação cultural dos oprimidos, trata-se logo de demonizá-las, como aconteceu aqui no Brasil com o candomblé. Para as classes dominantes, era um culto demoníaco, tanto que era proibido até a década de 50, se não me engano.
E se é para falar em grito, ontem ouvindo a 89.1 FM, a rádio rock, fiquei sabendo que Eric Carr, baterista do Kiss, estaria fazendo 61 anos de idade, se estivesse vivo. Ele morreu de um tipo raro de câncer no coração (nossa, nunca ouvi falar nisso) em 24 de novembro de 1991, mesmo dia de Freddy Mercury. Dia medonho para os roqueiros.
Lembram da batida da música I love it loud? Então, essa é a marca do talento de Eric Carr. Olhando a letra da música, vi que é puramente a essência do rock, o grito, o estalar de vida, a catarse. E aí, lembrei-me de duas outras obras: "Song for my self" (Canção para mim mesmo) do lendário Walt Whitman e "AA UU" dos Titãs. As três têm isso em comum: o grito, o protesto, a catarse, o despertar; o dizer NÃO à onda de imbecilização coletiva. Isso acontece muito em arte, já repararam? Artistas que estão distantes no tempo e no espaço, de repente, criam obras com a mesma essência. Aliás, eu tenho um outro texto aqui mesmo no blog demonstrando isso. Revejam:
Vamos ver as letras:
I love it loud, Kiss
Love It Loud
Hey hey hey, yeah!
Hey hey hey, yeah!
Hey hey hey, yeah!
Hey hey hey, yeah!
Stand up, you don't have to be afraid
Get down, love is like a hurricane
Streetboy, though I never could be tamed
Better believe it
Guilty, 'til I'm proven innocent
Whiplash, heavy metal accident
Rock on, I wanna be the president
('Cause I love it)
Loud, I wanna hear it loud
Right between the eyes
Loud, I wanna hear it loud
Don't want no compromise
Turn it up, hungry for the medicine
Two-fisted till the very end
No more treated like aliens
We're not gonna take it
No lies, no more alibis
Turn it up, it's got me hypnotized
Rock on, I won't be tranquilized
('Cause I love it)
Loud, I wanna hear it loud
Right between the eyes
Loud, I wanna hear it loud
Don't want no compromise
(I love it)
Loud, I wanna hear it loud
Right between the eyes
Loud, I wanna hear it loud
Don't want no compromise
Hey hey hey, yeah!
Hey hey hey, yeah!
Hey hey hey, yeah!
Hey hey hey, yeah!
(Turn it up)
Headline, jungle is the only rule
Front page, roar of the nations cool
Turn it up, this is my atttude
Take it or leave it
Loud, I wanna hear it loud
Right between the eyes
Loud, I wanna hear it loud
Don't want no compromise
(I love it)
Loud, I wanna hear it loud
Right between the eyes
Loud, I wanna hear it loud
Don't want no compromise
(I love it)
Hey hey hey, yeah!
Hey hey hey, yeah!
Hey hey hey, yeah!
Hey hey hey, yeah!
Eu Amo Isso Alto
Hey hey hey, yeah!
Hey hey hey, yeah!
Hey hey hey, yeah!
Hey hey hey, yeah!
Levante-se, você não precisa ter medo
Abaixe-se, o amor é como furacão
Garoto de rua, não, eu nunca poderia ser domado
Melhor acreditar nisso
Culpado, até que provem minha inocência
Chicoteado, acidente do heavy metal
Agite, eu quero ser presidente
(Porque eu amo isso)
Alto, eu quero ouvir isso alto
Bem no meio dos olhos
Alto, eu quero ouvir isso alto
Eu não quero me comprometer
Aumente, faminto pelo remédio
Com dois punhos até o fim
Não seremos mais tratados como alienígenas
Nós não vamos aguentar isso
Sem mentiras, sem álibis
Aumente, isso me hipnotizou
Agite, eu não serei tranquilizado
(Porque eu amo isso)
Alto, eu quero ouvir isso alto
Bem no meio dos olhos
Alto, eu quero ouvir isso alto
Eu não quero me comprometer
(Eu amo isso)
Alto, eu quero ouvir isso alto
Bem no meio dos olhos
Alto, eu quero ouvir isso alto
Eu não quero me comprometer
Hey hey hey, yeah!
Hey hey hey, yeah!
Hey hey hey, yeah!
Hey hey hey, yeah!
(Aumente)
Manchete, a selva é a única lei
Primeira página, rugido da nação
Aumente, esta é minha atitude
É pegar ou largar
Alto, eu quero ouvir isso alto
Bem no meio dos olhos
Alto, eu quero ouvir isso alto
Eu não quero me comprometer
(Eu amo isso)
Alto, eu quero ouvir isso alto
Bem no meio dos olhos
Alto, eu quero ouvir isso alto
Eu não quero me comprometer
(Eu amo isso)
Hey hey hey, yeah!
Hey hey hey, yeah!
Hey hey hey, yeah!
Do site letras.mus.br
Agora vejamos um trechinho do longo poema de Walt Whitman, A Song for myself, verso 52 (Uma canção para mim mesmo):
"I too am not a bit tamed
I too am untranslatable,
I sound my barbaric yawp over the roofs of the world."
Sir Walt Whitman
Tradução:
Eu também não fui domado
Eu também sou intraduzível,
Eu solto meu brado bárbaro sobre os telhados do mundo.
Quem assistiu e apreciou o filme Sociedade dos Poetas Mortos, vai lembrar que tem uma cena em que o professor fala esse verso "I sound my barbaric yawp over the roofs of the world". Era um momento em que ele tentava desreprimir um aluno, para que este conseguisse se expressar.
Agora vejamos a letra dos Titãs:
AA UU
AA UU AA UU
AA UU AA UU
Estou ficando louco de tanto pensar
Estou ficando rouco de tanto gritar
AA UU AA UU
AA UU AA UU
Eu como, eu durmo, eu durmo, eu como
Eu como, eu durmo, eu durmo, eu como
Está na hora de acordar
Está na hora de deitar
Está na hora de almoçar
Está na hora de jantar
AA UU AA UU
AA UU AA UU
Estou ficando cego de tanto enxergar
Estou ficando surdo de tanto escutar
AA UU AA UU
AA UU AA UU
Não como, não durmo, não durmo, não como
Não como, não durmo, não durmo, não como
Está na hora de acordar
Está na hora de deitar
Está na hora de almoçar
Está na hora de jantar
Então aí está, pessoal. Esta é a minha homenagem ao Rock no dia de hoje.